Perfil

Sexta feira, 23 de Julho de 1954. Em Long Beach, na Califórnia, realiza-se o tradicional e aguardado concurso anual de Miss Universo. Dentre as 79 concorrentes ao título, está uma fulgurante brasileira de 21 aninhos, Maria Marta Hacker Rocha, nascida no Bairro da Graça, em Salvador. Ao final da festa, numa controvertida decisão do júri, Marta fica em 2o lugar. Os juízes (todos americanos) resolvem dar o título à sua conterrânea Miriam Stevenson. No Brasil, o resultado é recebido como se fosse uma tragédia nacional.

Na busca por explicações, os jornalistas tupiniquins perceberam que a diferença entre as duas misses, não estava na cara, mas na região glútea. Miriam tinha 95cm de quadris, e as ancas de Marta Rocha mediam 100cm, redondinhos. O grande golpe imperialista contra o tchan nacional renderia enérgicos protestos populares, além de uma marchinha de Carnaval interpretada pela própria Marta Rocha: “Por duas polegadas a mais / Passaram a baiana pra trás / Por duas polegadas / E logo nos quadris / Tem dó, tem dó, seu juiz”.

Marta Rocha, que nas três décadas seguintes se tornaria o paradigma da perfeição física da mulher brasileira, tinha 1m70 de altura. Hoje em dia, em qualquer seleção de modelos, uma jovem que tenha as mesmas medidas de Marta sequer passaria pela recepção. O que mudou na estética feminina? Mudou o perfil: Gisele Bündchen, gaúcha de Horizontina, é 10cm mais alta que Marta Rocha, e tem quadris 11cm menores. Há os que ainda preferem as calipígias, mas quem dita a norma é o chamado ‘mercado’.

O mercado de trabalho, como as cadeiras das candidatas a modelo, também ficou bem mais estreito. Nos tempos de Marta Rocha, 7 mil horas passadas nos bancos escolares (equivalentes, hoje, ao Ensino Fundamental) já eram suficientes para garantir um bom emprego, no escritório de uma empresa respeitável, com um ordenado inicial de 3 salários mínimos. Hoje, para quem se candidata a uma vaga numa empresa de grande porte, são necessárias, por baixo, 18 mil horas de estudos, incluindo vários cursos paralelos de aperfeiçoamento. E – surpresa – para ganhar os mesmos 3 salários mínimos. Ou seja, as empresas estão pagando muito menos por hora de estudo. Mesmo assim, qualquer processo de seleção para estagiários em uma grande empresa atrai mais de mil candidatos por vaga.

Onde foram parar a experiência, a força de vontade, a integridade e o entusiasmo, fatores que as empresas consideravam até mais relevantes que os estudos? Eles continuam importantes, mas passaram a ser vistos como inerentes, e não mais como diferenciais. Foram substituídos pelos diplomas, pelo networking, pela atualização tecnológica e pelos idiomas. O que as empresas chamam de ‘perfil compatível’ passou a ser uma longa lista de atributos, muitos dos quais até desnecessários para o desempenho da função. Há 52 anos, Marta Rocha foi eliminada pelo que tinha a mais. Hoje, 99% dos candidatos são eliminados pelo que têm a menos. Daí, atualmente, uma bela vaga em uma grande empresa é quase uma improbabilidade estatística. Mais de 90% das vagas abertas anualmente no Brasil estão no serviço público ou nas pequenas e médias empresas, que ainda não sucumbiram à ditadura do perfil perfeito. Quem tentar esses caminhos talvez conclua, como Marta Rocha concluiu, que a falta de perfil num processo de seleção pode parecer uma derrota, mas, no fim das contas, acabará trazendo mais benefícios do que uma vitória teria trazido.