Inveterado

Inveterado é um adjetivo e, como todo mundo aprendeu no Primeiro Grau, os adjetivos só andam acompanhados. Mas, como é público e notório, a fidelidade nunca foi o forte dos adjetivos: eles mudam de substantivo mais do que estrelinha global muda de namorado. Os adjetivos vêm fazendo há séculos uma coisa que a moçada só descobriu faz um par de décadas: eles ‘ficam’. Todos eles, menos um: inveterado. Durante toda a sua existência, que já está próxima do fim, essa palavrinha só acompanhou um único substantivo: ‘fumante’. Num caso exemplar de paixão morfológica, ninguém jamais viu inveterado com outro par. Quando o último fumante da língua portuguesa jogar fora a derradeira bituquinha, o inveterado também dirá adeus à sua carreira gramatical.

Inveterado, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, não quer dizer ‘demais’ ou ‘excessivamente’. Quer dizer ‘há muito tempo’. Um fumante inveterado não é o que fuma compulsivamente, é o que fuma desde sempre. Da mesma palavrinha latina – veteris, ‘velho’ – que deu origem ao inveterado, surgiu também outra mais conhecida: veterano. Mas nada impede que as pessoas possam ser inveteradas em outras atividades; Romário, por exemplo, é um jogador inveterado. Fidel Castro é um ditador inveterado. E a Selma, para azar dela, é uma funcionária inveterada.

Não que a Selma seja, digamos assim, antiga ou passada. Pelo contrário, ela ainda nem chegou aos 30 anos. O problema da Selma é que ela se inveterou. Está fazendo a mesma coisa há horas, e seus chefes acabaram ficando com a impressão de que a Selma não sabe fazer mais nada. Não lhe dão oportunidades, nem podem que ela tente criar algo novo ou diferente. E a Selma, para disfarçar, costuma dizer “Eu amo o que faço”. Amar é bom, mas amor por falta de opção nunca é correspondido. Por isso, a carreira da Selma estagnou (do latim stagnum, ‘tanque’, com o sentido de ‘aquela mesma água que nunca sai do lugar’).

Não que ser inveterado seja necessariamente ruim. Há pessoas que se tornam sucesso exatamente porque são inveteradas. Em nossos tempos, ninguém inveterou melhor que o Papa João Paulo II, tanto que é impossível pensar nele como sendo qualquer outra coisa na vida. Mas ele é um, e as selmas em geral não apenas são muitas, como também fazem parte de um contingente que está aumentando a cada dia: o das pessoas que deixam o tempo passar, imaginando que algo irá acontecer. E a história recente das empresas mostra que, sim, algo sempre acontece com os inveterados: cedo ou tarde, eles são substituídos.

Certa vez, eu fiz um curso e, no primeiro dia, os participantes foram convidados a responder a uma única pergunta: “Qual a última coisa que você fez e que mudou a maneira como você era percebido pelos demais?”. A maioria respondeu que tinha lido um livro, ou feito uma viagem, ou passado a freqüentar uma academia. A Selma, que fez o curso comigo, informou que tinha começado a fazer meditação. Todos foram classificados pelo professor como ‘potencialmente inveterados’, porque a idéia do curso era mostrar a diferença entre ‘fazer’ e ‘ser notado por ter feito’. Hoje em dia, no mercado de trabalho, quem está fazendo a mesma coisa há 3 anos já é um inveterado. E a lição do curso era simples: ter a coragem de mudar nem sempre dá certo. Mas não mudar, por preguiça, ou medo, ou acomodação, quase sempre dá errado.