Conselho

Na Roma Antiga, consilium não eram palavras de sabedoria; eram lugares onde pessoas com conhecimento de causa se reuniam para debater as grandes questões sociais e políticas. É com esse sentido que ainda existem o Concílio de Cardeais do Vaticano e o Conselho Deliberativo das empresas. Mas das conversas dos mais sábios sempre surgia alguma dica interessante para o povo, daí “conselho” ter se tornado também “uma sugestão sensata que pode mudar ou melhorar a minha vida”. Não foi à-toa que da palavra consilium derivaram os termos ‘consultório’ – lugar aonde buscamos opiniões médicas – e ‘consultor’ – alguém que pode dizer o que há de errado com a nossa carreira ou com a nossa empresa. A diferença está no preço: conselho grátis é palpite. E conselho pago é consultoria.

Há conselhos para todos os gostos. Por exemplo, você acredita em sonhos? Então, aqui está um conselho: “Quem confia nos sonhos está agarrando sombras e perseguindo o vento”. Meu colega César Souza, autor do livro “Você é do tamanho de seus sonhos” certamente irá discordar, e eu concordo com ele. Mas a frase está na Bíblia (em Eclesiástico 34, 2). Um pouco mais adiante, no mesmo livro bíblico, está um conselho do sábio Ben Sirac no século II a.C., que o Professor Domenico De Masi transformou num best-seller – “O Ócio Criativo” – no século XX d.C.: “A sabedoria é adquirida nas horas de lazer. Torna-se mais sábio aquele que está livre de atividades” (38, 24). E há ainda muitos outros conselhos nos versículos que se seguem, dentre eles um de arrepiar: “É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher” (42, 12). Ou seja, o que não tem faltado neste mundo, desde o seu princípio, são conselhos.

A se julgar pela quantidade de manuais de aconselhamento e de auto-ajuda que se vende no Brasil, hoje em dia nós estamos precisando mais que nunca de conselhos. Porque muitas das coisas que nossos pais e nossos professores nos disseram quando nós éramos crianças não eram bem assim, como o tempo se encarregou de mostrar. Minha mãe, por exemplo, sempre me falava que eu seria um sucesso na vida se fosse um bom aluno. Já meus professores me prometiam o paraíso, desde que eu fosse decorasse a lição e fosse obediente. Ninguém me estimulava a ser crítico e meus ataques de bom humor durante as aulas não eram lá muito apreciados – no mais das vezes, eram severamente punidos. Mas eu fiz o possível para me enquadrar no figurino, já que meu futuro dependia disso.

Aí, um belo dia, eu caio no mercado de trabalho, cheio de cobras criadas que não davam a mínima importância para meus méritos escolares. Fiquei perdido, é claro, e procurei ouvir os conselhos de gente com mais experiência e maturidade. Algumas pessoas me deram livros para ler e outras ofereceram sugestões de comportamento, mas a maioria, mesmo, me mandou lamber sabão. Só que, após 4 anos de vida profissional, e apesar dos conselhos, minha carreira estava exatamente onde havia começado – na estaca zero. E então eu fui me aconselhar com um Gerente tido como sábio, o Seu Fausto. E ouvi dele um conselho inesquecível e surpreendente. “Conselhos são chaves” – ele me disse – “Chaves que servem para abrir portas que já estão abertas. Se você está enxergando a porta, não precisa da chave. E, se está pedindo a chave, é porque não vendo a porta aberta. Portanto, em ambos os casos, a chave é inútil…”