Compatibilidade

Eu gostava de participar daquelas reuniões de sábado, que a empresa organizava em algum hotel distante, para melhorar a integração e aumentar a motivação dos funcionários. Elas funcionavam – e ainda funcionam – mais ou menos assim: há exercícios de relaxamento físico e mental, apresentações dos diretores, algum lazer, e, lá pelas tantas, um trabalho em grupo. Por exemplo, os grupos são convidados a imaginar que, dali a cinco anos, uma revista de negócios irá publicar uma matéria de capa sobre a empresa. Qual seria o título dessa matéria?

Os grupos então bolam títulos impactantes, e o escolhido quase sempre se parece com ‘Sandubrás, O Modelo Mais Que Perfeito de Gestão do Novo Milênio’. Ninguém se preocupa em saber como tanto título caberia em tão pouca capa, mas há uma evidente preocupação em responder o que todos imaginam que a empresa gostaria de ouvir, e não o que cada um realmente gostaria de falar. É por isso que poucas lembranças ficam dessas reuniões. Com o passar dos anos, o que permanece na memória coletiva é o lado folclórico do evento, tipo um colega que abusou da caipirinha e caiu na piscina.

Aí, eu me lembro do Fausto Gomes. Numa dessas reuniões, o Fausto ensinou, a mim e aos meus colegas, uma rara e duradoura lição. Nós fomos separados em grupos, e cada grupo foi solicitado a pensar em uma palavra – uma só – que melhor resumisse o relacionamento entre os funcionários. E apareceram as que sempre impressionam bem, como Harmonia, Companheirismo, Cooperação, e uma, Holística, que, na época, quase ninguém ainda tinha ouvido falar. Embora bonitas e sonoras, as palavras estavam longe de definir a realidade, porque todos sabíamos que nosso ambiente de trabalho ia de mal a pior. Isso, até o Fausto Gomes ser nomeado para representar um grupo, e escolher a palavra ‘Compatibilidade’.

O Fausto foi lá na frente e explicou que ‘Incompatibilidade’, como todo mundo sabia, era a impossibilidade de duas ou mais pessoas conseguirem conviver civilizadamente. Logo, o termo oposto, ‘Compatibilidade’ só podia significar ‘paz e felicidade’, correto? Não, segundo o Fausto. O termo era formado por duas palavras do Latim: con, que quer dizer ‘junto’, e patis, que significa ‘sofrimento’. Em sua origem, portanto, o verbo ‘compatibilizar’ significava ‘aprender a compartilhar os sofrimentos’.

O Fausto enfatizou que nós éramos, sim, como a direção sempre apregoava, o ativo mais importante da empresa. Só que coletivamente. Porque, individualmente, cada um de nós era descartável. E nós vivíamos infelizes porque não estávamos conseguindo entender que, para a empresa, nós só tínhamos valor como grupo. A parte da empresa ela estava fazendo direitinho: administrar um bloco de pessoas. Nós, funcionários, é que estávamos falhando, porque nossa única salvação estava na compatibilidade: juntos, dividiríamos os problemas e as frustrações, e sofreríamos menos. Sendo egoístas e individualistas como estávamos sendo, e deixando de lado a solidariedade, sofríamos demais. E, pior, sozinhos.

Devo essa ao Fausto Gomes. Nunca mais me esqueci que ele, com uma simples palavra, começou a mudar a cara e o humor daquela empresa. Ah, e também me lembro que o Nilson Costa, da Contabilidade, abusou da caipirinha e caiu na piscina.